Cartas ao Irmão Alberto

Cartas de Irmã Gema da Eucaristia ao Irmão Alberto

 
As Cartas abaixo, dirigidas ao Sr. José Ferreira Gonçalves, Irmão Alberto, foram copiadas de um opúsculo para uso interno das Monjas. O livrinho, do qual temos uma cópia em carbono,  trata de assuntos muito práticos. Madre Gema, do Carmelo de São Paulo, dirige a construção do Carmelo de  Belo Horizonte.  Mas esta "Marta", muitas vezes, dá lugar a "Maria", possibilitando-nos conhecer sua forte espiritualidade. A ortografia foi atualizada na medida do possível. 
 
A DOMINO FACTUM EST ISTUD EST - MIRABILIS IN OCULIS NOSTRIS  - (Ps 117)
 
Estas cartas foram escritas por N. Madre ao "Engenheiro de Nossa Senhora", quando construía nosso pequeno Carmelo. São preciosos documentos que nós queremos guardar com carinho, para as gerações vindouras sentirem todo o peso da gratidão, que devemos ao nosso Ir. Alberto, cuja dedicação é inesgotável. Nosso Carmelo vai completar dez anos, e ele sempre tem de reserva no "bom tesouro" do seu coração, o carinho e os cuidados do primeiro dia.

Bastam estas linhas, para explicar a significação destas cartas.

Carmelo N. Sra. Aparecida – Belo Horizonte

 
J.M.J.T
 Carmelo de S.  Paulo 14-7-1940
 

           Sr.  Gonçalves:
 
Viva Jesus!
 
Finalmente,  envio-lhe  hoje, as  indicações a respeito das  marcas oficiadoras do coro. O Sr. vai reparar que as distâncias diferem das  que traz o Cerimonial,  porém  a experiência muito vale, e  o Carmelo de S. Paulo já tem dela um grande cabedal ... Para haver melhor união entre as vozes, é  preferível que as cantoras  fiquem mais pertinho umas das outras. O Sr. pode seguir essas medidas, que ficam muito bem. Quero pedir-lhe a caridade de algumas  informações muito  necessárias,  porquanto já estamos trabalhando ativamente na confecção das alfaias da capela,  a fim de evitar acumulação de trabalho. Primeiro de tudo, um esclarecimento sobre a grade do comungatório.   O Cerimonial,  diz o seguinte: "No meio desta grade dispõe-se uma janela pequena de ferro, fechando à chave, para passar a sagrada Comunhão; deve ser um quadrado com 0,18 a 0,22 de lado." O Sr. quer dizer-me qual dessas duas medidas pretende adotar? Em seguida, desejo saber que medida terão os altares do coro e o do oratório, para que eu possa cortar as toalhas. Aqui no Carmelo de S. Paulo, não foi possível seguir as medidas que o Cerimonial traz para o altar do coro, porque temos, não um quadro, porém uma imagem de Na. Senhora do Carmo. Como pretendemos fazer o mesmo aí, achamos conveniente enviar-lhe as medidas do nosso, somente para orientá-lo um pouco. Ei-las: comp. 1,60 – alt. 1 mt. – largura 0,86, incluindo-se nessa medida a largura da mesa do altar, que é de 0,42. Esse altar eleva-se sobre um estrado que mede 1,62 de comp. 1,50 de largura e 0,13 de altura. Meu empenho é saber se posso cortar as toalhas de conformidade com essas medidas. O altar do oratório fica à sua vontade, somente por causa das toalhas que desejo saber logo que medida terá. Queira-me também dizer-me se já tem algum projeto para os altares da capela. Não podemos fazer as toalhas e os véus do Sacrário, até que nos venham as medidas certas, e não convém deixar tudo para muito perto. Se fosse possível fixar logo o projeto para os altares, seria muito boa cousa. Não tivemos ocasião de falar na disposição das imagens da capela. Se não houver algum parecer contrário, nosso desejo é o seguinte: no altar mor: o lugar de honra é de Nossa Senhora Aparecida. Um pouco abaixo, aos lados, uma imagem de Santa Teresa e outra de São João da Cruz. Os dois altares laterais serão dedicados, um a São José e outro a Santa Teresinha. Diremos depois uma palavrinha a esse respeito ao nosso santo Pai, Mons. Messias. Sei que ele fará o gosto das filhas...
 
Quando me responder (espero que não tarde muito) queira dizer-me se foram bem claras as explicações que mandamos a respeito do refeitório. Se o Cerimonial fala em colocar uma mesa de pedra na parte inferior do refeitório, é porque na planta que ele traz não há, entre a cozinha e o refeitório, aquela parte que chamamos "De profundis". Segundo a nossa planta, no recinto do refeitório só ficam as mesas e o púlpito. A janela do serviço, a pia e o filtro ficam no "De profundis".
 
            Estou vendo que esta longa carta parece mais ser de "Marta" do que de "Maria"... Perdoe-me, mas penso que posso invocar em minha defesa o exemplo de nossa Mãe Santa Teresa, que gostava de entrar em detalhes. Verdade é que há enorme diferença entre os pobres conventinhos que ela adaptara e o futuro Mosteiro de Nossa Senhora Aparecida... Que Nosso Senhor nos perdoe a todos, não é?
 
            Já faz muito tempo que não temos uma palavrinha sua, nem mesmo ficamos sabendo se o seu irmão está passando melhor. Geralmente, quando N. Senhor escolhe uma vítima, não costuma ter muita pressa na consumação do sacrifício. Uma vida que se esvai aos pouquinhos, é o verdadeiro triunfo desse amor generoso, que é tão agradável a Nosso Senhor. Feliz de quem pode dar-lhe "testemunho de sangue", talvez mais valioso do que o martírio real, visto a sua duração.
 
            Termino esta carta no dia 15, véspera da festa de Na. Senhora do Carmo. Tenho a íntima convicção de que nossa Mãe do Céu, "glória e beleza do Carmelo", não deixará de ter um carinho especial para o seu "engenheiro", no dia da principal festa que lhe é feita em nossa santa Ordem. Será o justo prêmio da sua dedicação por nós, ou antes, o começo dos favores que lhe atrairá a caridade constante que há de ter em relação às Carmelitas. Contamos com a "trindade" que aí encontraremos: Mons. Messias, Dr. Cristóvão e o Sr. Que edifício espiritual o interesse ainda mais do que o material...
 
            Reze bem por nós, peça a Nosso Senhor que escolha as fundadoras e lhes dê graça para semelhante missão.
 
            Adeus. Não sei se Na. Revda. Madre escrever-lhe-á desta vez.
 
            Em Jesus, a religiosa estima da sua irmãzinha
 
            Ir. Gema da Eucaristia
            r.c.i.

 
J.M.J.T
Carmelo de São Paulo, 8.8.1940

 
Sr. Gonçalves
 
Viva Jesus em nossas almas!
 
            Recebi no dia 5 a sua carta. Creio que é excusado dizer que ela me trouxe grande contentamento, não é verdade? Já passou para nós o tempo das cerimônias, porquanto, em seus insondáveis desígnios N. Senhor já o irmanou às Carmelitas... Em vão a sua humildade procurará inventar adjetivos para denunciar os seus pretendidos deméritos, porque não fica menos verdade que o bom Deus o fez objeto de uma escolha particular, ao confiar-lhe um papel preponderante na santa empresa que temos em vista. Diante de tais evidências, o mais acertado é imitar a humilde simplicidade de nossa Mãe do céu, ao aceitar a honra insigne da maternidade divina. Ela não pensou em dizer ao Arcanjo que não merecia ser Mãe de um Deus, mas curvou-se diante da vontade de Deus declarando-se a "serva do Senhor"...
 
            Essa atitude de Nossa Senhora nos oferece um lindo modelo, a todos nós que trabalhamos com amor numa obra de amor. Mas... as obras de Deus costumam trazer o selo da cruz, como sinal de autenticidade. Assim, como Nossa Senhora aceitamos também uma grande soma de sacrifícios. Aliás, os fundadores da obra aí em Belo Horizonte já puseram uma cruz nos alicerces do Carmelo, quando renunciaram às Irmãzinhas do Rio... A cruz das fundadoras de São Paulo ficará certamente para o remate... Qual será ela? é o segredo de N. Senhor. Por enquanto, só temos consolação em tudo quanto fazemos para preparar um lindo enxoval para o nosso Jesus. Da reunião de toda a nossa boa vontade depende o bom êxito de tudo, não é verdade? E o bom Deus abençoará nossos esforços como já está abençoando os sacrifícios que o Sr. faz para dirigir os trabalhos da construção. N. Senhor lhe diz como à Sta. Catarina de Sena, embora em sentido diverso: "Cuida de mim, que cuidarei de ti"... Vou tomar a meu cargo o seu futuro Redentorista, que ficará sendo o meu segundo irmãozinho Missionário, pois já tenho entre eles um Padre que foi meu aluno em Goiás. E a nossa pequena Carmelita? O Sr. bem pode imaginar com que carinho será cultivada no "jardim fechado" do Carmelo a sua florzinha, se N. Senhor no-la quiser confiar. Vou escondê-la bem, sob o manto de Nossa Senhora do Carmo, e estou certa de que nossa querida Mãe do Céu recompensará sua caridade para conosco, chamando sua filhinha para o serviço de N. Senhor.
 
            Agora, "Marta" pede a palavra... Antes de tudo, recolho o que lhe disse sobre a colocação das imagens na capela. Vi uma carta do nosso bom Pai a Laly, e por ela fiquei sabendo que a doadora do terreno impõe a condição de ser a igreja dedicada a Santa Teresinha. De modo algum queremos ir contra isto e jamais levaremos a exigência até o ponto de pedir ao Sr. Arcebispo uma mudança de determinação. Quando se tratou de trocar a planta, fizemos valer o bem da observância e tínhamos o dever de fazê-lo. Agora, o caso é diferente... Limito-me a confiar-lhe, muito fraternalmente confiante, que não acho boa a idéia de juntar Nossa Senhora Aparecida e Santa Teresinha no lugar de honra. Não lhe parece que o conjunto ficará pouco harmonioso? sendo Nossa Senhora de tamanho tão reduzido, a imagem de Santa Teresinha teria de seguir a mesma dimensão. Enfim, ainda há muito tempo para resolver esse caso, não é? queria apenas apagar a idéia de alguma exigência descabida... Quanto à janelinha do comungatório, adotaremos a medida menor: 0,18 de lado. Quer isto dizer que a janelinha terá ao todo 0,36 de largura, não é? medindo ontem as dimensões da que temos, vi que é pouquinho mais estreita. Isso não quer dizer nada, não é? A respeito das dimensões dos altares, digo-lhe que os altares do interior do Mosteiro poderão todos ter a mesma medida que lhe enviei na carta passada. O Sr. já deve ter notado que são 8: no coro, no oratório, na sala do Noviciado, no coro de cima, no Capítulo, na capela das relíquias e nos 2 eremitérios. Somente o altar do coro e o do oratório precisam ser bonitinhos. Os outros 6, ao menos no começo, podem ser bem simples. A respeito dos altares da capela, não posso aceitar o seu oferecimento de fornecer eu mesma as medidas, porquanto não tenho por onde me guiar. Os altares da nossa capela são muito grandes, não servem para modelo. Só o Sr. tendo um pouco mais de paciência com suas Irmãzinhas... Não se poderia fazer um projeto para esses altares, aí mesmo? Meu intento, pedindo com tamanha insistência as medidas, é evitar a confusão que causa a pressa. Se tudo ficar para o fim, será preciso muito afã no trabalho, o que é muitíssimo contrário ao espírito de paz que deve animar tudo quanto fazemos. Basta que eu saiba o comprimento, a largura e a altura da mesa dos altares. E olhe que não me lembrei a princípio que a grade que separa o santuário e a nave da capela, servindo de mesa de comunhão para as pessoas de fora, precisa também de uma toalha... Por conseguinte, eis outra medida que me é bem necessária. Logo que for possível, mande dizer-me alguma cousa a esse respeito. As Carmelitas vão fornecer ao Sr. Gonçalves um meio rápido de alcançar a santidade pela prática da paciência... Recomendo-lhe bem baixinho que não deixe o arquiteto projetar os altares da capela muito grandes, sim? Na carta do nosso Pai a Laly, vi também que o Sacrário vai ser comprado à parte. Espero explicações sobre ele, a fim de saber que formato devem ter os véus. Respondo agora às suas perguntas. – Janela do Coro – gostei muito do modelo que o Sr. mandou. Só tenho uma observação prática a fazer: essas janelas de ferro só têm vidro ou levam também folha de madeira? Se apenas tiverem vidro, não podem ser empregadas no coro e no ante-coro, por uma razão muito forte: durante a Missa e nos dias de exposição do SSmo. Sacramento, nosso Cerimonial prescreve que o Coro fique às escuras, a fim de que a grade possa ficar aberta sem que as Irmãs sejam vistas do exterior. Se as janelas só tiverem vidro, só se poderia escurecer o coro por meio de cortinas, o que é pouco monástico. Feita essa observação necessária, repito-lhe que temos inteira confiança no Sr. e lhe deixamos o cuidado de resolver essas questões, certas de que a compreensão que N. Senhor lhe dá das nossas cousas há de conservá-lo nos justos limites do necessário, evitando todo ataque à santa pobreza, o querido tesouro das Carmelitas. Lembra-se do que eu lhe disse e repeti muitas vezes aqui no nosso locutório? Segundo o espírito de nossa Santa Madre, o luxo e a beleza são para a capela. Queremos sempre ser "as pobres freiras do rico Jesus". O contrário seria horrível. – Nas outras partes da casa, as janelas de ferro e o vidro fosco ficam muito bem, porque só o coro e o ante-coro precisam ficar às escuras em certas ocasiões. No refeitório, o Sr. pode fazer como ficar melhor. É bom colocar as janelas mais alto. Digo o mesmo dos W.C., banheiros, etc. Quanto às janelas das celas, quanto mais ar e luz permitirem entrar, melhor será. A Carmelita mora na cela, e está visto que aí deve trabalhar o dia inteiro, se o contrário não lhe for ordenado. Portanto, é uma peça que precisa receber bastante claridade. – Não entendo bem como são essas venezianas das quais o Sr. fala. Aqui, as janelas que dão para o jardim do claustro têm venezianas que se abrem completamente, em duas folhas. As celas do lado oposto, cujas janelas dão para o jardim maior ou para a chácara são de venezianas de tipo comum. Isto fica ao seu cuidado, somos pouco entendidas na matéria... Tenho ainda uma recomendação a respeito do coro: durante certas cerimônias, como tomadas de hábito, de véu e enterro das religiosas, para que as Irmãs não sejam vistas de fora (porquanto a grade estará completamente aberta em tais casos) repartimos o coro com uma cortina, presa em ganchos de ferro engastados na parede. Esses ganchos precisam ser colocados antes de revestir de reboco as paredes, para que fiquem bem firmes. Um de cada lado das paredes laterais, a 3 metros de distância da grade do coro. Além desses dois ganchos, são precisos mais dois, a 1 m. e ½ de distância da grade. Eles servem para prender uma cortina que em certos dias, como na distribuição das Cinzas e dos Ramos, colocamos diante do Comungatório. Quanta cousa... Consolo-me pensando que tudo vai sendo posto na conta de N. Senhor, que é o nosso rico Banqueiro... Já me espanto à vista do comprimento dessa carta. O sacrifício está bem repartido entre nós. Não faz mal, não é? seremos "Martas" por amor de N. Senhor, certos de que o perfume das orações de todas as "Marias" levarão sempre ao bom Deus uma partezinha que nos pertence...
 
            Vou pedir muito a N. Senhor uma saúde melhor para sua Senhora. Invocarei todos os seus direitos... Desejo muito saber se o seu irmão Guy recebeu minha carta. Mandei-a para o Sanatório, conforme o endereço que ele mesmo me deu. Se não tiver recebido, só reclamando no Sanatório, não é?
 
            Adeus. Peço-lhe que não se esqueça de recomendar-me a N. Senhor. Nossa Reverenda Madre envia-lhe uma bênção de Nossa Senhora. E a sua irmãzinha, através do sacrifício desta longa carta, envia-lhe um grande "Jesus lhe pague" por tudo quanto o Sr. faz por nós...
 
            Em Jesus e Maria, a sua
 
            Irmã Gema
            r.c.i.

 

Carmelo, 06 - 10 - 1940
 
Sr.Gonçalves, meu irmão em N.Senhor.
                            
 Viva Jesus !
 
Sua irmãzinha “formiga cabeçuda” já não pode mais de tanta vontade, de picar uma peça de linho que a Laly trouxe para as toalhas do altar. Mas . . . apesar das tenazes bem amoladas, ela tem de ficar quietinha, porque ainda não recebeu as medidas  que o Sr. lhe prometeu. É de muita vantagem que elas me venham logo, pois o tempo tem asas e é preciso aproveitar enquanto posso contar com a dedicação de Laly, que se encarregará de mandar fazer os bordados. Não foi sem motivo que me dei logo por “formiga cabeçuda”, pois esse nome justifica as minhas exigências . . .
Durante nosso retiro, estive examinando nossos regulamentos, nas partes que diz respeito à construção da casa. Se o Sr. os visse . . . São tentadores para nós, que tanto estimamos esse cunho da pobreza que é pedido pela austeridade de nossa vida. Na impossibilidade de seguir a risca essas indicações, penso que podemos ao menos  simplificar o mais possível a parte destinada às religiosas, não admitindo cousa alguma por simples ornato e muito menos o que não for de necessidade imprescindível. Depois de um exame sobre o que combinamos, descobri uma cousa que podemos cortar: são os despejos. Não os temos aqui neste Carmelo, não quero assumir a responsabilidade de introduzir uma cousa que visa a comodidade . . . O Sr. poderá achar pueril essa idéia, porém nós as religiosas, bem sabemos o perigo que há nas cousas pequeninas. É por elas que o demônio começa, quando quer destruir a perfeição de um convento. Na vida de nosso Pai S.João da Cruz é referido que uma noite ele levantou-se da cama para levar fora da cela um alfinete que, por descuido, havia pregado no hábito. . . Delicadezas de santo, que nos servem de preciosa lição. Como o Sr. me disse que podia falar-lhe sempre com a franqueza de uma irmã, aí vai minha primeira exigência . . . Na enfermaria e no gabinete do médico, poderá deixar o despejo, só não os quero para o uso da Comunidade. Os W.C os substituem perfeitamente, como fazemos aqui. Basta que em cada W.C haja um ralo, para facilitar a limpeza. Também a porta da clausura me preocupa. Vou pedir muito ao Espírito Santo que lhe inspire um meio de resolver o problema da entrada da lenha a fim de que seja possível haver somente  uma porta. Há muita inconveniência na admissão de uma segunda porta, porque ela só pode ser aberta na presença de 2 religiosas, cousa que é dificílima, principalmente nos dias chuvosos. Estou certa de que N.Senhor dar-lhe-á a graça para resolver o caso do melhor modo possível.
Como vai passando o meu irmãozinho Mário ? O retratinho dele continua sempre aos pés de Nossa Senhora, para que Ela o abençoe e guarde. Também não me esqueci do Sr. e das suas intenções. A fim de provar-lhe essa lembrança muito fraternal vou juntar a esta um bilhetinho tirado à sorte para o Sr. , durante uma de nossas expressivas festinhas íntimas. Sexta-Feira passada, dia 4, comemoramos o aniversário da morte de N.Santa Madre. Depois de um  “Te Deum” em ação de graças pelo acolhimento que ela recebeu de N.Senhor, cada Irmã tira à sorte, um cartão, que chamamos “Testamento de N.Santa Madre”. Quando chegou a minha vez, lembrei-me do Sr. e dos outros membros do meu Carmelo extra-muros, não resistindo à tentação de tirar um cartão para cada um. Gosto de ligar uma importância especial a essa sorte, que sempre costuma vir muito a propósito . . . Cousa interessante: para o nosso Pai Mons. Messias e para mim, caiu exatamente a mesma cousa. De certo N.Santa Madre quis assim reforçar o último conselho que me deixou e do qual tanto preciso. Nunca se ouviu dizer que “maribondo” tenha virado “abelha”, mas pode acontecer que a mansidão do Pai consiga ao menos diminuir-lhe o “ferrão” . . .  A sorte que coube ao Dr. Cristóvão é muito expressiva e confirma os ideais  de uma alma de apóstolo . . . A caridade fraterna foi também o legado do Coração de Nosso Senhor, nas últimas horas de sua vida mortal. Quanto à sua, encerra a “quinta essência”da perfeição cristã . . . A conformidade com o querer de Deus é o segredo da santidade, a garantia da paz, e o penhor da felicidade, tanto nesta vida como na outra. “Quando sentimos tristeza, dizia um santo Jesuíta, é sempre porque queremos alguma cousa que Deus não quer . . .”. Verdade profunda e muito prática também . . . a alma que assim encerra sua vontade na de Deus centraliza suas forças e as põe em reserva para as grandes horas. Gosto muito desse pensamento de Mons.Gay: “Querer o que Deus quer, é ser forte; só querer o que Deus quer, é ser livre. Ora, ser forte e ser livre, é ser capaz de tudo. O heroísmo dos Santos não teve outra origem, e a santidade à qual devemos todos tender não tem outro caminho mais seguro. Não acabaria mais em si continuasse a falar sobre um assunto que me é tão caro. No entanto , é preciso terminar esta carta,  a fim de ter logo a resposta . Despeço-me, pois, pedindo-lhe a caridade de fazer chegar aos destinatários os cartões que vão junto. Recomende-me à sua senhora e ao Guy. Diga ao Carlos que ele agora tem uma madrinha espiritual no Carmelo, que reza por ele todos os dias. Que ele não tenha medo de mim, pois agora vou ficar mansinha . . .
Adeus, meu bom irmão, reze por mim e perdoe-me o trabalho que lhe dou. São apenas os prelúdios . . .
Em Jesus e Maria, sua irmãzinha carmelita
Ir.Gema
r.c.i.
 

+
J.M.J.T.
Carmelo, 21-10-1940
 
 
Meu prezado irmão em N.Senhor:
 
Viva Jesus!
 
Recebi ontem, a sua carta do dia 17. Se depender só das carmelitas, suas orelhas ficarão sempre em paz, porque só temos que agradecer a N.Senhor o bem que nos faz por seu intermédio. Compreendo perfeitamente que o Sr. tem muita cousa para pensar e resolver . . . assim terei bastante paciência, quando for preciso esperar um pouquinho as suas respostas. Como o Sr. diz que posso mudar o que quiser nas medidas do altar, venho propor-lhe uma leve modificação, que será vantajosa para mim: se em lugar das medidas, o altar principal fosse das mesmas dimensões do nosso, ficaria bem contente. Achava o nosso muito grande, porém vejo que é menor um pouquinho do que o seu. A diferença é insignificante, creio que não irá prejudicar a estética da capela . . . Nosso altar tem 2 metros e 66 cent. de comprimento, 51 cm de largura (só a mesa) e 99 de altura. Já vou cortar as toalhas de acordo  c/ essas medidas, pois sei que o Sr. as aceitará. Os altares laterais serão um pouco menores, não é ? Se o Sr. quiser, mandarei depois as medidas dos nossos ou talvez seja melhor enviar-lhe desde já uma nota completa das dimensões de todos os altares, tanto da capela como do interior do Mosteiro. Ficará mais fácil para o Sr. guardar, não é ? Junto também as medidas das credências, que igualmente me são necessárias.
Já estava um pouco ao corrente dos embaraços que a falta de meios está suscitando à nossa obra. Li uma carta do nosso Pai à Laly. Quando N.Santa Madre fundava seus conventos, entregava o cuidado da parte financeira ao Nosso Pai S. José, que jamais se mostrou mau tesoureiro. Vamos também fazer o mesmo ? A confiança é a condição do sucesso de toda empresa. A obra é de N. Senhor. Ele saberá levá-la a bom termo, apesar de todos os obstáculos. Ficaria bem contente se o nosso Mosteiro pudesse ajudar-nos um pouco, porém vejo que não se pode contar com isso. Laly tem a firme confiança de que N.S.Aparecida fará outro milagre. Se for preciso adiar a inauguração, creio que não haverá nenhum mal, não é verdade ? Nossa Santa Madre semeou graças de sofrimento no dia de sua festa . .  Quando soube por sua carta que o nosso bom Pai nem celebrou Missa no dia 15, lembrei-me logo de que Laly e eu ganhamos também uma forte “gripe”nessa mesma tarde. Todo sofrimento é uma benção de Deus . . .
Quando tiver de escrever-me, dê-me notícias do Dr. Cristóvão, cujo silêncio começa a impressionar-me. Talvez seja exigência de minha parte, pois sei que ele tem muitas ocupações. Queira dizer-lhe que muito o recomendei a N.Senhor no dia 15. Agora em novembro teremos visita canônica. Talvez seja decidida então a escolha das fundadoras. Peça bem a N.Senhor que nos mostre a sua divina vontade.
Dia 24 de novembro, festa de S.João da Cruz, festejarei meus 15 anos de Profissão. Quero ganhar a sua Comunhão nesse dia, Sim ?
Adeus, meu bom irmão. N. Revda. Madre muito se recomenda. Quando estiver com o Mons. Messias, peça-lhe uma benção para mim. Escrevi-lhe a semana passada.
 
Em Jesus e Maria, sua irmãzinha
 
Ir.Gema
r.c.i.

                             +
                       J.M.J.T.
 
Carmelo, 16 - 11 - 1940
 
Meu irmão em Nosso Senhor :
 
                              Viva Jesus !
 
 
Recebi ao mesmo tempo a sua carta e uma do nosso santo Pai. Embora a defesa que o Sr. encomendou tenha vindo em tom de acusação, está visto que imediatamente fiquei desarmada . . .
Aliás, o delito apareceu somente à delicadeza do seu coração, pois a sua irmãzinha bem sabe que o Sr. Não tem muito tempo disponível, e seria o mais completo tipo de ingratidão se quisesse exigir mais de quem já faz tanto. Nossa Santa Madre era muito agradecida, e por certo não hei de querer ser uma filha degenerada . . . Às vezes, penso comigo mesma o que faria ela,  se, nos seus tempos de fundadora, encontrasse a minha querida trindade aí de Belo Horizonte. Com quanto carinho guardaria no seu grande coração de santa os cooperadores tão amigos que Nosso Senhor colocou no meu caminho. Lá do céu ela vê as deficiências da sua pobre filha (que é tão autoritária e quase egoísta . . .) e cuidará certamente em compensar o que não sei fazer. Achei ótima a sua idéia de colocar o telefone no quarto da roda, do lado externo. Já me ocorrera essa lembrança. Se realmente há no caso alguma maldade, como Sr. diz, bem podemos repeti-la . . . Temos aqui a experiência de todos os inconvenientes que resultam de ficar o telefone de um Carmelo muito ao alcance de todo mundo . . .  Dessas maldades, o Sr. pode fazer quantas puder, certo de encontrar o apoio de “formiga cabeçuda”. Grande alegria me deu também a boa solução do problema da porta da clausura. Como N. Senhor é bom ! eu desejava tanto que só tivéssemos uma porta. Estou de acordo no que diz respeito à iluminação. Apenas recomendo, se ainda for tempo, que será conveniente por duas lâmpadas na sala do recreio. Na minha ignorância, não sei se a mesma instalação serve para a campainha que toca do quarto de uma das veleiras para a cela da Priora e a que chama de dentro para fora. Se assim for, e se a chamada ficar mesmo na cela da Madre, será  preciso esconder bem o botão, para que não dê muito na vista. Se pelo contrário, as instalações forem separadas, a chamada de dentro poderá ficar no locutório ou em outro lugar mais conveniente. Não entendo cousa alguma do assunto. O que desejo é o seguinte: que de fora as veleiras possam tocar uma campainha colocada na cela da Priora e que esta possa também chamar as veleiras, em caso de necessidade. Veja se o Sr. entende esta confusão que estou fazendo . . . Vou devolver-lhe a planta que aqui ficou, marcando nela qual vai ser a cela da Madre. O que vou dizer agora é simplesmente uma opinião, que talvez não seja justa quanto ao lado econômico. Portanto, não tome as minhas palavras ao pé da letra, caso não for possível atender-me sem muito gasto. É o seguinte: se os ladrilhos não forem mais caros do que as tábuas, gostaria que o Sr. os empregasse de preferência, em todos os lugares em que o assoalho de madeira puder razoavelmente ser dispensado. É para facilitar às Irmãzinhas a limpeza da casa. O Sr. não imagina como o Carmelo de São Paulo é um sorvedouro de forças, cousa que as carmelitas não têm de reserva... Fico com muita pena das Irmãs, pois o assoalho de madeira é fácil de sujar e difícil de limpar. Sem nada exigir, marcarei na planta os lugares que não podem dispensar o assoalho de madeira. O Sr. fará como for melhor. – Talvez seja desnecessário lembrar-lhe uma cousa, meu irmão, porém vou fazê-lo assim mesmo, pedindo-lhe antes que me perdoe repetir tanto... Como o Sr. tem de fazer as marcas do Coro antes de colocar o altar, não se esqueça de que a marca da hebdomadária deve ficar a 5 metros e meio da parede que separa o Coro do ante-Coro, a fim de que, depois de ter colocado o altar, que ocupa metro e meio, essa marca fique a 4 metros de distância do supedâneo, como manda o Cerimonial... N. Revda. Madre diz que de tanto explicar, acabo fazendo confusão... Essa mania é um restinho da antiga professora. Como a gente custa a morrer, não? Faz 17 anos que estou no Carmelo e ainda conservo traços do que fui. – Vamos agora entrar no grande silêncio do Advento. Não escreverei mais, até Natal. No entanto, se o Sr. tiver precisão de algum detalhe, poderá escrever-me, pois nossa Regra diz que "a necessidade não tem leis". Desejo-lhe as melhores bênçãos durante esse santo tempo. Que as mãos de nossa Mãe do céu façam do seu coração um berço bem macio para o Menino Jesus. A melhor maneira de facilitar esse trabalho a Nossa Senhora será fornecer-lhe generosamente  uma grande quantidade de penas para encher o colchãozinho.... Cada pequeno ato de amor ou de conformidade com a vontade de Deus será uma peninha... A sua carta me diz: "Conseguirei atingir um cimo tão alto"? Sim, responderei em nome de N. Senhor, a condição única é a boa vontade e a perseverança. A primeira cousa, sei que o Sr. tem e é de ótimo quilate. E a segunda? Deixo-lhe essa interrogação. Adeus. Já me esquecia de dizer que Frei Paulo gostou muito da visita que fez às obras do nosso Carmelo, porém teve a impressão de que não ficarão prontas tão cedo. Deixemos isto a N. Senhor.
       Em Jesus e Maria, sua irmãzinha muito grata
       Ir. Gema
       r.c.i.
 

                   +
              J.M.J.T.
 
Carmelo, 23 – 1 – 1941
 
Meu prezado irmão em N. Senhor:
 
Viva Jesus !
 
 
Estou vendo que não posso passar sem uma reclamaçãozinha . . . O novo ano já tem um mês de idade e até hoje ainda não me veio uma palavrinha sua. Veja se não tenho razão . . . Não é sério o que acabo de escrever, meu bom irmão, sei que o Sr. tem muitas ocupações agora. No entanto, desejaria muito saber o que ficou decidido a respeito da capela provisória. Nosso Pai me disse que o Sr. opinava pelo coro de baixo, ficando o anticoro servindo de coro das religiosas. Ficaria bem, por causa do tamanho da peça, porém as janelas não poderiam ser abertas, pelo menos as que dão para os claustros. Mesmo as outras devassariam muito a nossa clausura, o Sr. não acha ? O que mais me interessa nesse ponto é saber com certeza as dimensões do altar provisório e do Sacrário. O Sr. recebeu as medidas que mandei ? Se achar que fica muito dispendioso fazer tudo de  uma vez, poderíamos, nos primeiros tempos, reunir as rouparias numa só, de modo que 1 ou 2 armários bastarão. Mais tarde, iremos completando tudo. Só para a sacristia é que precisamos de tudo, como disse na última carta. Penso que não dei as dimensões das nossas camas. Elas são muito simples, constam apenas de 2 cavaletes, 3 tábuas. Os cavaletes tem 0,42 de altura e 0,48 de largura. As tábuas tem 1,85 de comp. E a largura conveniente.
Imagino que falta não está fazendo aí o nosso santo Pai, pois os dias que passou aqui já chegaram para deixar no meu coração um lugar que nenhuma outra pessoa poderá preencher. É o privilégio dos santos, não é ?
Recomendo-me à sua senhora e a todos de sua casa.
À espera de uma palavrinha, aqui fica a sua irmãzinha em N.Senhor.
 
Ir.Gema
r.c.i.
          
                 +
           J.M.J.T.
 
Carmelo, 12 – 2 – 1941
 
Meu irmão em N.Senhor:
 
Viva Jesus!
 
Por uma carta do nosso santo Pai, soube ontem que o Sr. está um pouco doente. Fiquei triste, porém consolei-me pensando que N Senhor tem o costume de fazer da cruz a recompensa dos escolhidos do seu divino Coração. Entretanto, não por isto de rezar muito para a saúde lhe seja restituída. Eu ganhei um presentinho desse gênero e acabo de fazer uma pequena estação na enfermaria, com o privilégio da visita diária de N. Senhor. É tão comovente uma Comunhão na enfermaria ! o sacrifício de ficar presa fio bem recompensado por semelhante consolação. Comecei ontem mesmo uma novena  ao Coração de Jesus, pedindo para o meu bom irmão uma dupla graça: a de ficar bom e a de tirar muito proveito da provação. O sofrimento bem aceito e bem unido aos sofrimentos de N. Senhor é um grande meio de santificação, porque nos faz vencer o maior obstáculo  que encontramos no caminho . . . De fato, o sofrimento físico nos humilha, dando ao nosso orgulho natural a grande lição da nossa miséria, do nada que somos. Lição prática que nos faz muito bem, porque a humilhação nos tonifica a alma, segundo a expressão de um Jesuíta mineiro, meu grande amigo.
Gostei de saber que o Sr. ficou conhecendo o Pe. Rocha que é muito nosso conhecido. É um santo Jesuíta, que faz honra à terra onde nasceu. Vou agora esperar as impressões que ele teve ao visitar o nosso Carmelo. Ontem, recebi diversos retratos daí, porém diz o nosso Pai que os trabalhos estão mais adiantados. Gostei de ficar conhecendo todo o pessoal que se empenha na construção. Terei uma intenção particular para cada um. Ontem, Laly e eu examinamos o problema da nossa viagem para aí.  N. Revda. Madre servia de árbitro . . . Eu achava que era melhor irmos de automóvel, como ficara combinado, porém a Laly demonstrou com evidência que é preferível fazermos a viagem de trem. Tenho verdadeiro horror à idéia de ficarmos expostas a todos os olhos, mas é certo que a viagem ficará menos fatigante, o Sr. também não acha ?  A possibilidade de ficarmos juntas pesa igualmente na balança. Examine bem a cousa e mande dizer-me o que pensa, sim ? Não podemos ficar tantos dias no Bom Pastor. Como a Laly irá alguns dias antes, ela fará os arranjos que puder. Quanto a nós chegaremos à véspera e poderemos passar a noite no Bom Pastor. Será uma alegria para mim. Gosto muito da Madre do Coração Agonizante, apesar de não conhecê-la. Se o noviciado não ficar pronto não faz mal, as Noviças ficarão nas celas próximas à nossa. Não é conveniente transformar a enfermaria em Noviciado, não só porque a Comunidade ficaria repartida, mas também porque é necessário prevenir algum caso de doença. Repito-lhe que nos arranjaremos de qualquer modo. Não é de uma vez que se faz uma obra tão grande . . . Logo entraremos no silêncio de santa Quaresma. Se esta for a última carta, quero assegurar-lhe antecipadamente uma carinhosa lembrança no dia 12 de março. Peço a N. Senhor que abençoe e multiplique os seus dias, para que uma longa existência cheia de méritos receba no céu uma grande recompensa. Não sei se estou agindo de um modo egoísta ao formular esse desejo . . . a vida verdadeira é aquela que começa com a morte. Se quisermos tomar a cousa “ao pé da letra” é evidente que chegaríamos à graciosa desculpa de Sta.Teresinha, ao ser repreendida por desejar a morte à sua mãe: “É para que ela vá logo para o céu !”
Dia 19 de março, teremos as nossas eleições. Peça a N. Senhor que as abençoe, sim ?
Mando recomendações à D. Floranita e a todos os seus, principalmente à noivinha, que coloquei sob a proteção especial de N. Pai S. José, o protetor das famílias cristãs.
Adeus, meu bom e muito caro irmão.
Em Jesus, o reconhecimento da sua pobre irmãzinha.
 
Ir. Gema.
r.c.i.

 
     +
J.M.J.T.
 
Carmelo, na manhã de 23 – 2 – 1941
 
Meu irmão em N. Senhor:
 
Viva Jesus !
 
Recebi ontem à noite a sua querida carta. Se realmente o Sr. só teve uma “doencinha”, alegro-me de todo coração, pois sou muito egoísta e gosto do sofrimento só para mim . . . Creio que é por isto que N. Senhor não me deixa sofrer nada, só me dá as aparências. Foi o que aconteceu há poucos dias: em vez de sofrimento, a operação só me causou alegria e consolação . . . Imagine que o médico foi meu irmão Galeno. Que alegria, estar tão pertinho desse irmão querido, que há 17 anos só via através das grades ! Que consolação também, notar o extremo respeito que ele mostrou para com a irmãzinha carmelita. Fiquei admirada  e edificada, pois tivemos um encontro à carmelita: por cumprimento , uma simples inclinação de cabeça e nada mais. Como isto faz notar a profunda separação que a vida religiosa estabelece, mesmo entre os parentes mais próximos ! Bem dizia S. Paulo: “O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”. Louvado seja Deus !
Meu irmão, devo confessar-lhe que o seu voto contra a opinião de Laly foi muito do meu agrado, pois sentia grande repugnância pela viagem  de trem . . . No entanto, estamos por tudo quanto quiserem os nossos amigos daí, desde que seja de acordo com a vontade do nosso santo Pai. É a única condição. Pessoalmente, não sou de opinião que a viagem seja feita de avião. Acho que não fica muito bem, mas como já disse farei o que aí julgarem melhor.
Quanto à pintura da casa, devo dar também meu “voto” contra o Sr . . . Será preferível deixar as paredes branquinhas, por toda parte. Creio que o branco tem um aspecto mais simples, que condiz melhor à nossa vida. Veja o que o Mons. Pensa a esse respeito.O Sr. acha que as paredes brancas ficam logo sujas ? Se é uma questão de ordem econômica, não tenho nenhuma competência para julgá-la. Mostro apenas o meu gosto pessoal. Vamos ver quando é que Nosso Senhor quer a inauguração do nosso Carmelo. É preciso que o Sr. nos avise com alguma antecedência, se for em Maio, pois devemos nesse caso apressar alguns preparativos. Creio que este ano de 1941 está sendo para o Sr. um ano áureo, não é ? O casamento de Maria (confirmação da cura milagrosa) a tomada de hábito do Mário, Carmelo . . . quanta cousa N. Senhor lhe dá de uma vez. Só Ele sabe assim contentar as almas. Como o Salmista nos convida a bendizer a Deus em tudo quanto nos acontece, é justo que recebamos com reconhecimento as alegrias, encontrando nelas o carinho do Pai que nos criou para uma felicidade eterna, da qual tem pressa de fazer-nos gozar. Mas 6 anos, parece-me, e o nosso Mário poderá cantar a primeira Missa na capela do Carmelo . . . Que alegria para todos nós ! Vou pedir muito a N. Senhor todas as graças necessárias ao meu irmãozinho. Sei que ele agora vai começar e é preciso que comece bem, para que possa vir a ser uma coluna bem firme no templo do Senhor.
Adeus, meu bom irmão, (e não “servo” . . .) desejo-lhe santa Quaresma e todas as alegrias da Páscoa. S.Paulo diz que, se acompanharmos a Jesus em seus sofrimentos, também participaremos de sua glória.
 
Em Jesus, sua irmãzinha.
 
Ir.Gema
r.c.i.


      +
J.M.J.T.
 
Carmelo, 23 – 2 – 941
 
Meu irmão.
 
Recebi sua carta expressa. A questão da cor dos ladrilhos poderá melhor ser resolvida pelo Sr., porque não tenho prática e posso pedir o que não convém . . . Aqui, a cozinha, a dispensa, o “De Profundis”, e os banheiros são de ladrilhos vermelhos. São eles os mais resistentes ? Se forem, o Sr. poderá preferi-los para todos esses lugares e também para os claustros, passagens e outros compartimentos que assinalei. Nosso refeitório é de ladrilhos brancos e escuros. Nota-se que ficaram logo encardidos. Se os daí forem de melhor resistência, o refeitório poderá ser como o nosso. Ainda uma vez o Sr. pode escolher a cor que achar melhor, eu não entendo disto. Até agora só discordamos quanto à pintura da casa, o que, aliás, não é questão de gosto, mas de conveniência religiosa . . .Espero que não hei de ter nenhuma surpresa desagradável. As portas e as janelas podem ser envernizadas, como o Sr. disse, contanto que, não fiquem muito claras. Não me lembro mais da cor de cedro. O Sr. me disse na sua última carta que o coro e o refeitório levam estuque de madeira. Não se esqueça de que a sala do Capítulo deve também ser estucada do mesmo modo.
Logo que o Sr. puder ter certeza quando à época da nossa ida para aí, faça a caridade de avisar-me, Sim ? Mesmo que seja durante a Quaresma. Nosso silêncio diz respeito somente à correspondência ordinária. Se o Sr. precisar escrever-me, poderá fazê-lo sem receio. Agradeço-lhe os retratos. Já sei distinguir o seu irmão, entre as outras pessoas.
Recomendo às suas orações o meu retiro particular de 23 de março a 3 de abril, se N. Senhor o permitir.
Escrevo uma cartinha ao Mário. O Sr. não me deu mais notícias do Carlos, quero crer que ele vai bem, não é ? E o Guy, continua sempre na cruz ? Faço-lhe uma visitinha. Muitas recomendações a D. Floranita e a todos os seus.
Adeus. Estou com vontade de vingar-me do Sr. tomando também o nome de serva . . . Por hoje, ainda sou sua irmãzinha.
 
G.

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J.M.J.T.
 
 
Carmelo, 25 - 2 - 1941
 
 
Meu bom irmão, ainda sou eu . . . Venho lembrar-lhe uma cousa: quando o Sr. mandar fazer o altar que ficará servindo provisoriamente, não se esqueça das duas credências que devem ter as medidas que assinalei numa nota que lhe enviei há muito tempo. As de tamanho menor, que servirão depois para os altares laterais da capela.
Peço-lhe a caridade de fazer observar bem as medidas que dei, porque as toalhas estão sendo feitas por elas. Se ficarem diferentes, será um desastre.
Adeus. No dia 12 de março, santa festa no Coração de N. Senhor.
 
 
Sua irmãzinha.
 
G.

         
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       J.M.J.T.
 
Carmelo, 8 – 3 – 1941
 
Meu caro irmão em N. Senhor.
 
Viva Jesus !
 
Para não quebrar o jejum da Quaresma, reparto a folha de papel no meio . . .  Assim resumo a impressão que me fez o começo da sua carta última. Por amor à sua alma, pode ser que N. Senhor o faça encontrar em mim o que espera. Não sei . . . tenho a mãozinha um pouco pesada. Não se esqueça de que sou formiga cabeçuda. Enfim, a boa vontade de tudo fazer por quem faz tanto por nós não me falta, isto posso assegurar-lhe. Estou de acordo quanto às portas, desde que não podem ser de todo lisas. É preciso que tudo seja resistente. Aqui, todas as portas ficaram empenadas, apesar de terem moldura. Creio que foram feitas de madeira verde. Que falta faz um “engenheiro de N.Senhora”para cada Carmelo . . . Acabo de descer da nossa torre, onde fui eu mesma tomar a medida dos nossos sinos, porque não sabia como dar-lhe a orientação pedida. Nosso sino maior tem 0,56 de diâmetro e o menor tem 0,44. Se o Sr. achar grandes, poderá comprar o N° 1 e o N° 3, do anúncio que me mandou e que lhe devolvo. As campainhas estão muito bem, o Sr. ainda fez mais do que pedi.
O caixote de queijos chegou 2a.  ou  3a.  feira. Achei engraçado: a  Irmãzinha  leiga que se encarregou de abri-lo me disse muito entusiasmada: “Quando V.R. escrever ao Sr. Gonçalves, diga que o Carmelo de Sr. Paulo nunca viu esta riqueza”. O mais interessante é que a riqueza foi guardada em lugar seguro, à espera da Páscoa, porque as carmelitas não comem ovos e nem laticínios durante a Quaresma. Que gente enjoada, não é ? É preciso que o Sr. se acostume  logo com todas as nossas esquisitices . . .
Estou com muita pena do Guy. Pobrezinho ! É preciso comprar muito caro a felicidade ser uma vítima, não é ? Pe. Rocha esteve aqui. Dos meus dois irmãos muito queridos, contou-me maravilhas, que eu já sabia melhor do que ele.
O Sr. sabe que o dia 12 é o aniversário da canonização de N. Santa Madre ? Ela quer que o Sr.seja uma das jóias da sua coroa . . .
Adeus, meu irmão.
Em Jesus, a amizade da sua irmãzinha,
 
Ir. Gema

r.c.i.

 
                              +
J.M.J.T.
 
Camelo, 12 - 4 - 1941 Sábado Santo
 
Meu irmão em N. Senhor.
 
Viva Jesus !
 
 
Quero ser a primeira a vir desejar-lhe as santas alegrias da Páscoa. Na epístola da Missa de hoje, Sábado Santo, S. Paulo parece oferecer-nos uma nota discordante dos repetidos “Aleluias”, dizendo estas palavras severas ! Estais mortos, a vossa vida está escondida em Deus com o Cristo. “No entanto, essa feliz morte que nos esconde em Deus é a plena expansão, em nós, da vida divina, essa vida que nos é assegurada pela graça que Jesus nos comprou com seu Sangue. Eis porque lha desejo, muito naturalmente, meu caro irmão, essa morte que é uma ressurreição. Que Jesus viva na sua alma e seja o inspirador de todos os atos. Desejaria mandar-lhe dentro desta carta um pouquinho da santa alegria do Carmelo, durante esta oitava de triunfo. Não sei se o Sr. já teve ocasião de reparar que as almas mortificadas são mais alegres . . . Nossa Sta.Madre gostava de cantar nos dias de festa , e costumava dizer : “Dos santos encapotados, livrai-nos, Senhor !”
Vou dar outro rumo a esta cartinha, do contrário fá-lo-ia perder muito tempo. Primeiramente, quero dizer-lhe o seguinte: faço questão que o casamento da sua filhinha seja feito na capela do nosso Carmelo. Já falei sobre isto ao nosso Pai, que se declarou adivinhado num dos seus mais caros  desejos. Como o Sr. talvez saiba, não é permitido fazer casamentos e batizados nas capelas dos conventos. No entanto, mediante uma licença especial, admitem-se exceções bem justificadas. Creio que nenhuma exceção pode ser mais justa do que esta que lhe proponho, meu irmão. A sua filhinha foi o motivo inspirador dessa dedicação incomparável que o Sr. vem dispensando ao Carmelo, assim fazendo jus às bênçãos de N. Senhor e à gratidão das carmelitas. Mons. Alberto consultado a esse respeito, disse que compete ao Sr. o cuidado de pedir ao Sr. Arcebispo essa permissão. Se por acaso sua Excia. Quiser também um pedido nosso, queira avisar-me logo, para que eu lhe escreva.
Nosso Pai mandou-me o itinerário da vossa viagem. Como o Sr. gosta que eu lhe diga as minhas idéias, confessar-lhe-ei que preferiria não passar pelo Rio, por uma razão muito simples: tenho lá meu irmão Galeno, duas cunhadas, sobrinhos, tias, primos e uma quantidade de pessoas amigas. Passar sem prévio aviso, será causar-lhes pena, e ter de encontrar toda essa gente será penalizar-nos a nós . . . Sé se o Sr. quiser marcar um ponto de parada bem distante. Mande dizer-me qual é a sua opinião. Quando Mons. Alberto soube que levaríamos 4 dias em viagem, quase desfez nossos planos, optando pelo trem . . . Felizmente, concordou depois. É que ele dispõe de pouco Tempo. Por esse motivo não podemos fazer o que disse o nosso Pai, que acha conveniente chegarmos a B. Horizonte 3 dias antes da inauguração, para termos tempo de examinar a casa. Isto não é possível. Se o Sr. achar bom , pensei assim: sairemos de Mogi no dia 16 de junho, dia 17, iremos até Juiz de Fora; dia 18 chegaremos até bem perto de Belo Horizonte, porém deixaremos a chegada para o dia 19, logo cedo. Iremos então diretamente ao Carmelo, onde ficaremos o tempo necessário para o exame da casa. Será o único meio, porquanto é meu desejo que a clausura seja fechada no mesmo dia da inauguração. Se o Sr. achar aceitável essa idéia, faça a caridade de assegurar-nos um absoluto segredo sobre esse nosso desígnio de visitar a casa, porque será muito conveniente estarmos sós, não acha ?  Além das Madres, apenas o nosso Pai, o Dr.Cristóvão e o Sr..  Teremos assim mais liberdade. Depois de uma perfeita inspeção, iremos passar o resto do tempo no Bom Pastor. Diga-me a sua opinião, sim ?  Talvez a nossa ida daqui para Mogi seja no dia 11, véspera da festa do Corpo de Deus. Digo talvez, porque Mons. Alberto ainda não decidiu. Desejo saber se mesmo com essa demora  o Sr. quer vir para levar-nos a Mogi. Não será para o meu irmão um sacrifício muito grande, ter de ficar fora de casa tantos dias ? Outra coisa que me preocupa é a viagem de Mons. Alberto. Eu o conheço bem, meu irmão . . . ele não aceitará ir no mesmo automóvel que nos leva. É um santo da escola antiga . . . Só se for na frente, com o chofer, o que somente se pode admitir se o Sr. mesmo guiar o carro. Mesmo nesse caso, diga-me esse lugar é bastante confortável para uma pessoa como ele. De certo o Sr. já sabe que agora somos 5, pois levamos daqui uma postulantezinha leiga. Espero a sua resposta a respeito de todas essas dificuldades.
Na última carta que recebi do nosso Pai, falou-me ele da pia para panelas, que o Sr. desejava forrar de azulejo. Apesar da mesma carta trazer no fim a solução do caso, já resolvido na sua primeira visita ao Carmelo de S. Paulo, dir-lhe-ei a minha opinião, agora: na nossa cozinha temos uma pia que outrora foi forrada de azulejos. O peso das panelas os quebrou bem depressa e foi preciso mandar arrancá-los e cimentar o fundo. Assim, se ainda for tempo, acho melhor fazer o fundo dessa pia de cimento. Exteriormente (e mesmo as paredes interiores dela) pode ser forrada de azulejos, pois facilita a limpeza e o asseio. Se já estiver feita, não a desfaça. Mais tarde, se os azulejos forem tão pouco resistentes, como os daqui, deverão mesmo ser arrancados. Já estamos bem perto do nosso grande dia 20 de junho. Ao lado dos preparativos para o estabelecimento exterior do nosso Carmelo, devemos dar uma parte maior à oração, para que ele se estabeleça realmente no Coração de Jesus, não é verdade ?  Mande dizer-me o dia que o Sr. quer marcar para o casamento da Maria, sim ? Adeus, meu irmão. Que N. Senhor lhe dê e a todos os seus, tudo quanto deseja o coração reconhecido de sua irmãzinha,
Ir. Gema
r.c.i.

 
+
J.M.J.T.
 
 
Carmelo, 17 - 4 - 1941
 
Meu irmão em N. Senhor
 
Viva Jesus !
 
Recebi hoje sua carta do dia 13. Fui muito sensível à sua delicadeza de escrever-me logo no domingo de Páscoa, embora tenha o gostinho de dizer que me antecipei ao Sr.  . . . No entanto, creio que não lhe disse uma palavra sobre o meu retiro, meu célebre retiro de 1941, o último no Carmelo de S. Paulo. Meu irmão, por uma dessas disposições divina que a gente adora, sem compreender-lhes o “porque”, esse tempo de paz foi para mim, o mais amargo de toda a minha vida. O Sr. não se lembra de que eu lhe disse uma vez que a cruz dos fundadores daí fora posto nos alicerces, e que certamente, a nossa serviria de remate ao nosso Carmelo ? Palavras proféticas . . .a pobre Madre fundadora foi esmagada como as uvas no lagar. Deus queira que o sangue de minh’alma valha para nosso Carmelo esse duplo espírito de caridade  que tanto peço para ele. Senti as orações  da minha querida “trindade”. Até parece que estava adivinhando a tormenta, quando pedi à Laly a caridade de avisar aí que eu ia entrar em retiro. A lembrança que trouxe para o Sr., foi escondida naquela palavrinha misteriosa de S. Paulo, que citei na última carta. O sofrimento mata em nós a vida imperfeita, crucificando com Jesus a nossa natureza orgulhosa . . . Estou deveras contente e creio que o Sr. também deve alegrar-se comigo, porque “Sofrer, passa, mas ter sofrido, não passará” . . . Responderei agora as suas perguntas, as mesmas das pias da cozinha, podem sim, ser forradas de azulejos. O Sr. poderá pô-los também na cozinha, de profundis, W.C e banheiros. Neste Carmelo, a pedra da ministra e os suportes das talhas d’água são de mármore. Fica melhor para o asseio. Quanto à campainha, se ainda há tempo para modificações, gostaria que o alarme fosse na própria cela da Priora. O botão que chama as veleiras poderá ficar também na cela da Madre, com a condição de ficar bem dissimulado, porque as celas devem ser iguais. Não recebi o catálogo para ver o que é pia e o que é lavatório, porém creio que, mesmo assim sem ver, posso dizer que prefiro, no cômodo que serve às celas, lavatórios e não pias. Creio que os lavatórios ficam mais baratos, não ? Prefiro também que sejam de louça, porque o ferro esmaltado se estraga mais depressa. A distribuição das instalações sanitárias está ótima, só tenho uma observação a fazer: se não me engano, combinamos que na cozinha seriam postas 2 pias para a louça e um tanque para as panelas. É assim que vai ser feito, não é ? na minha última carta, falei sobre esse tanque. Se for possível, acho melhor não por despejo na cozinha, prefiro um ralo maior. É assim que temos aqui. Gostaria também que houvesse um ralo no “De profundis”, para facilitar a limpeza do refeitório. Ainda será tempo ? Se não for possível, não faz mal. O caso da escolha dos muros deixou-me bem preocupada. Depois de pedir conselhos às nossas boas Madres, digo-lhe que é mesmo preferível fazer o muro que separa o jardim da chácara. No entanto, seria conveniente fazer algum sacrifício para ser logo feito o outro muro, porque a chácara nos ficará interditada, enquanto houver somente a cerca de arame. Nem que seja preciso demorar mais o resto da construção. A clausura de um Carmelo é coisa muito importante. Bem, pedimos a N. Senhor um outro milagre, porém Ele quer que experimentemos dificuldades. Eu também tenho as minhas. As obras de Deus tem sempre o sinal da cruz . . . Falando sobre os lavatórios, não me lembrei de repetir-lhe uma recomendação: será conveniente forrar de azulejo um pedaço de parede contra a qual estão colocados os lavatórios. Por falta desta lembrança aqui neste Carmelo, temos as paredes dos lavatórios já bem estragadas. É melhor prevenir do que remediar, não é ? Agora só falta a última pergunta, sobre os armários e as cômodas. É melhor que sejam envernizados, não por luxo, mas para favorecer-lhes a conservação. Já sabemos o dia da nossa partida de S. Paulo: será na manhã de 13 de junho. Ficaremos em Mogi apenas 2 dias, de modo que será mais fácil para o Sr. a demora em São Paulo. Meus pais teriam muito prazer em oferecer-lhe hospedagem lá em Mogi. Manda dizer-me se o Sr. quer dar-lhes essa alegria. Minha mãe, pobrezinha, anda muito triste, porque meu pai não quer nem mesmo ir assistir a inauguração do nosso Carmelo. Eu é que não quero intervir nesse caso. Desde a minha primeira Profissão, em 1925, entreguei os meus a N. Senhor de um modo absoluto . . . só faço questão de tê-los junto de mim lá no céu. Vou terminar, meu irmão, para não retardar muito esta carta, que acabo hoje, 18. Só escrevo à noite, porque o dia todo é empregado nos preparativos para a nossa fundação. Reze por mim, minha saúde ressentiu-se um pouco, depois dos últimos acontecimentos. Não há de ser nada. Nossa Reverenda Madre cuida muito de mim. Agradeço-lhe muito a lembrança de escrever-lhe. Ela foi minha Mestra do Noviciado e agora vai abrir a porta para mandar-me embora . . . Peça por mim uma benção ao nosso Pai, que está observando uma quaresma muito comprida. Todos os dias espero em vão, uma palavrinha dele.
Adeus, meu bom e muito caro irmão. Recomendo-me a todos os seus.
Em Jesus, a sua irmãzinha.
Ir.Gema.
 
Meu irmão, uma das suas perguntas ia ficando sem resposta. A largura do jardim não precisa ser muito grande, o Sr. poderá orientar-se pelas dimensões da chácara. Basta haver lugar suficiente para os canteiros gramados, indispensáveis os dias de lavar roupa. Outra coisa; nosso Pai escreveu-me que algumas pessoas acham exagero nas dimensões de certos compartimentos do nosso Carmelo. Falei sobre isto à nossa Madre Fundadora, que fez a planta, e ela assegurou-me que determinou tudo de acordo com os nossos usos. Ela manda perguntar-lhe o seguinte: na largura e no comprimento dos diversos cômodos, ela incluía o espaço que deveria ser ocupado pelas paredes. O Sr. também observou isto ? Se assim for, as reclamações devem ser conseqüência de uma falta de prática, pois um Mosteiro regular precisa de dimensões que facilitem a solidão e o silêncio, o Sr. não acha ?

Adeus, meu irmão.
 
      
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J.M.J.T.
 
 
Carmelo, 30 - 4 - 1941
 
Meu irmão em N. Senhor
 
Viva Jesus !
 
Recebi hoje a sua carta que respondo imediatamente. Não quero que o Sr. diga mais que as suas cartas me importunam, ouviu bem ? Asseguro-lhe que só tenho prazer, quando recebo uma palavrinha sua. Creio que agora vou ficando mais forte. Já fazia muito tempo que o caniço estava direitinho . . . era bem preciso que N. Senhor o fizesse vergar até o chão, sem contudo quebrá-lo. Tenho em mim uma resistência um pouco misteriosa, provada por tantos anos que passei doente. São Paulo diz muito bem: “Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor. Nesta convicção, é preciso que abandonemos a Deus o cuidado do que nos diz respeito, pois somos Dele, e o dono é livre de fazer o que quiser daquilo que lhe pertence. Sei que N. Senhor há de dar-me a força necessária para cumprir a missão que Ele próprio quis confiar-me. Pouco importa que eu sofra . . . Passo às suas perguntas. As celas das veleiras são iguais às nossas, em tudo. A diferença estará apenas no arranjo, que será para elas menos austero. Penso que seria melhor a mesa  do refeitório delas ser igual também às nossas. Se for possível. Creio que a medida de mesa da Priora, servirá para que fiquem as três juntas. Assentar-se-ão em bancos simples iguais aos que descreverei mais adiante para o coro provisório. O mobiliário para a sala de espera, locutórios e confessionários está muito bem. Na portaria, não desejo que fique nenhuma cadeira, sim ? Isto é de grande importância. As portas da clausura devem ser fortes, porém não é preciso forrá-las de ferro.  As daqui não tem nenhuma grade de ferro por dentro, creio que é desnecessário. Para o coro provisório, penso que será melhor fazer bancos simples, mais ou menos como os banquinhos das celas, porém mais largos e da altura de uma cadeira comum. Eles serão depois muito úteis, porque não temos cadeiras no interior do Mosteiro e há trabalhos que as Irmãs não podem fazer sentadas no chão. O número desses bancos depende do tempo que vamos ficar sem o coro grande. Para o começo, creio que 8 são suficientes. Mais 3 para as veleiras  e um para o gabinete  da Priora. 12 ao todo. Será que expliquei bem como são esses bancos ?  Eles podem ser envernizados. O gabinete da Priora comporta uma mesa com gavetas que possam ser fechadas à chave e um banco como os do coro provisório. Deixo ao seu dispor a solução do caso da lavanderia. Repito-lhe que arranjar-nos-emos como for possível. Sei muito bem como os começos são difíceis. O Sr. pode fazer tudo quando achar melhor, sem receio algum. Todos os trabalhos que não puderem ser terminados antes da inauguração, podem muito bem ficar para depois. Desde que haja algum lugar em que possamos nos isolar, o resto da casa ficará livre. Desejo somente que um empregado de confiança fique com a responsabilidade de examinar cada tarde todos os recantos da parte que ficar entregue aos operários, a fim de assegurar-me de que ninguém ficou dentro. Quanto aos vidros, não posso dar nenhuma solução, porque não sei como são esses vidros malhetados e ignoro o preço que tem. O mais certo é o Sr. consultar o nosso Pai e fazer o que ele disser, considerando apenas que os vidros  não podem ser de cor. Vi uma carta do nosso Pai à Laly e encontrei um pedacinho que merece um protesto muito enérgico . . . Ei-lo: “Estou pedindo a Deus que fiquem contentes com as acomodações que vão encontrar. Creia que não foi possível fazer melhor e nem mais do que fizemos e estamos fazendo .. .” Diga ao nosso santo Pai que ele está fazendo um mau conceito das filhas. Seria uma tristeza, se fossemos tão exigentes. Quando discutimos a planta e falamos do necessário, visamos a obra em seu conjunto e não nos detalhes práticos que as circunstâncias fazem nascer. A esse respeito, podem todos estar muito tranqüilos. Se alguma reclamação eu tiver de fazer, só poderá ser concernente  à regularidade do nosso Mosteiro. E isto, todos nós queremos, não é ?  Falemos agora da nossa viagem. Ficaria contente de seguir o itinerário que dispensa a passagem  pelo Estado do Rio. Não temos medo dos maus caminhos . . . A noite em Aparecida é muito do nosso agrado, No entanto, se o Sr. achar melhor, faremos o sacrifício. A viagem fica ao seu dispor, obedecer-lhe-emos direitinho . . .  Olhe que não é coisa agradável viajar com carmelitas. Na próxima vez  que tiver de escrever-lhe, mandarei todos os detalhes do que devemos observar durante uma viagem. O Dr. Cristóvão pode muito bem vir ao nosso encontro, não há nisto o menor inconveniente. Nós, o Sr. e eu é que teremos um sacrifício a fazer. Devia, por a coisa no singular, porque o sacrifício será apenas meu . . . Eis de que se trata: Mons. Alberto está certo de ir no seu automóvel, já falamos a esse respeito. Ora, desejo muito dar à nossa querida Madre S.José o prazer de ir com ele no mesmo auto e mesmo já lh’o prometi. Sendo assim, a ela é que vai caber o gosto de ir sob os cuidados de “engenheiro de N. Senhora”, pois as duas Madres não podem ir juntas, visto ser preciso repartir o grupo. A Madre S.José ficará com a Ir.Maria Ângela, e eu, com a Ir.Ana. Se a Floranita quiser deixar o papai para ir comigo no automóvel do Sr.Carvalho ficarei muito contente de ter assim alguma indenização. Todo o cuidado que o Sr. teria tomado de mim fica melhor empregado em relação de Mons.Alberto e da Madre S.José. Eu sou de casa . . .  O Dr.Cristóvão poderá ir na frente, no automóvel do Sr.Carvalho, não é ? Isto para a viagem de Mogi e Belo Horizonte. De São Paulo a Mogi, creio que poderei ir no seu auto. Mande dizer-me se é possível, só durante a viagem a Mogi, ficar assim lotado o seu carro: na frente o Dr. Cristóvão. Atrás, a Ir.Ana, Floranita a nossa postulante e eu. Um sobrinho da Madre S.José está querendo ir com ela até Mogi, levando também a senhora. Se for possível, daremos esse gosto à Madre, não é ?  Quanto a hospedagem em Mogi, como o Sr. disse que aceitará as minhas ordens, pensei o seguinte: a casa de meus pais é pequenina, só tem um quarto disponível. Se se tratasse apenas do Sr. e o Dr.Cristóvão, ficariam ambos no mesmo quarto, como bons irmãos, a Floranita ficaria na portaria do Carmelo. Mas há também o Sr.Carvalho. Nesse caso, faz-se assim: a Floranita ficará com minha mãe e os três passarão as noites no Hotel. Só as noites. Meus pais fazem questão de guardá-los durante o dia.  Terão hospitalidade pobre, mas posso garantir-lhes o luxo de um grande carinho . . . Minha pobre mãe indenizar-se-á assim de um sacrifício que tive de impor-lhe: ela pediu-me para entrar em casa um instantinho, e tive de dizer-lhe um não . . . Até agora as lágrimas me vem aos olhos, quando me lembro disto. São esses pequenos sacrifícios sangrentos que fazem a riqueza da vida religiosa. O que vale é que minha mãe compreende bem os meus deveres. Ela fez o sacrifício dessa última alegria, para obter-me de N.Senhor a graça de bem desempenhar a missão que me é confiada aí em Belo Horizonte. Gostaria de saber o dia que o Sr. quer marcar para o casamento de sua filhinha. Se essa lembrança o consola, muito maior é a nossa alegria de poder assim exprimir-lhe uma gratidão que cresce sempre, justamente porque o Sr. não a quer. . .
Agradeço-lhe a entrevista do nosso Pai. Gostamos muito.  Mande-me de vez em quando alguns retratos do Carmelo, as Irmãs gostam de ver como vai ser a nossa casa.
Adeus. Muitas recomendações à D.Floranita, à Maria, à minha filhinha, ao Carlos, ao Guy, a todos enfim.
No amor de N.Senhor, a sua muito grata e afeiçoada
 
Ir. Gema
     r.c.i.
 
                        Termino hoje, 01 de maio: 17 anos de minha entrada no Carmelo.
Magnificat !
 

 
   
      +
J.M.J.T.
 
Carmelo, 18 - 5 - 1941
 
Meu irmão em N. Senhor.
 
Viva Jesus !
 
Fiquei deveras confusa à vista do seu telegrama. Tanto carinho que não mereço . . . O que me consola é pensar que tudo se dirige a N.Senhor. Como escrevi ao nosso Pai, desde sexta-feira tive uma melhora repentina, que gosto de chamar milagrosa. Creio que N.Senhor ainda uma vez usou de misericórdia para comigo. Bendito seja Ele ! Aliás, se já não tivesse melhorado, por certo a última carta do nosso Pai teria operado o mesmo efeito. Saber que ele será o nosso capelão, indefinidamente, até que os Dominicanos tomem conta da paróquia ! Foi uma surpresa pela qual não podia mesmo esperar. Como N. Senhor é bom e mostra que ter bem o Carmelo mineiro. Mais uma responsabilidade para mim, não é verdade ? O Evangelho diz: “Muito será pedido a quem muito for dado” . . . Pedi a Laly que respondesse o seu telegrama e estava certa de que ela o fizera. No entanto, soube ontem que respondeu por uma carta expressa. Se soubesse eu mesma teria escrito. Perdoe-me essa indelicadeza, sim ? Os últimos dias são trabalhosos, não tenho tido um momento livre, de modo que só à noite posso encontrar um pouco de tempo para satisfazer correspondência, que é agora respeitável . . . as cartas amontoam na minha frente. Quero ver se até o dia 21 todas as malas serão fechadas. O que é nosso, nada custa, porém o enxoval de N. Senhor pede tempo e carinho. Graças a N. Senhor, creio que não ficarei em atraso. Prometi-lhe detalhes sobre o que devemos observar durante a viagem, porém vou deixá-los para quando o Sr., vier. Dir-lhe-ei somente isto: é bom prevenir as pessoas que deverão hospedar-nos, pois temos certos costumes que podem parecer  estranhos . . .  Nos hotéis e nas casas particulares, devemos logo retirar-nos a um lugar onde possamos estar sós. Não podemos, portanto, tomar parte na mesa comum, à hora das refeições. Nas casas religiosas, podemos seguir em tudo a Comunidade. Veja que não é agradável viajar em companhia  das carmelitas. Contudo é preciso que consideremos uma coisa: como Mons.Alberto deverá acompanhar-nos, se ele quiser que façamos de outro modo, obedeceremos, como sendo ainda o nosso Superior. Assim, não posso adiantar muita coisa, antes de saber o que ele pensa. Os dias vão correndo tanto ! Logo chegará a hora de deixar para sempre o meu Carmelo de São Paulo. O Sr. não pode imaginar o que de amargo há nesse pensamento . . . os laços que unem os membros de uma família religiosa são ainda mais fortes do que os do sangue, porque os ideais são os mesmos, como é o mesmo o fim para o qual todos vão tendendo. Farei o sacrifício de deixar também a família da terra . . . será mesmo o despojamento completo. Que N. Senhor aceite todo o sangue de minh’alma, em troca da perfeição do nosso Carmelo. O Revmo. Pe. Alvarenga, um Jesuíta mineiro a quem muito estimo, prometeu-me interessar em favor do nosso Carmelo alguns amigos graúdos que ele tem, visando principalmente a construção dos muros da clausura. Peça a N. Senhor que lhe abençoe a boa vontade, sim ?
Adeus, meu bom irmão. Creio que esta vai ser a minha última carta, não é ? Dia 22 deste, a Comunidade entrará em retiro.
Não nos esqueça nas suas orações.
Recomende-me a todos os seus.
Em Jesus, a sua
 
Ir.Gema
     r.c.i.
 
Acabo neste instante de receber a sua última carta e os retratos.
Jesus lhe pague.
 
     +
J.M.J.T.
 
Carmelo,24 - 5 - 1941
 
Meu irmão.
 
Viva Jesus !
 
Nossa Santa Madre dava a nosso Pai S. João da Cruz um duplo apelativo que lhe ficava muito bem. Ela o chamava: “Meu pai e meu filho”. Muitas vezes eu lh’o confesso muito simplesmente, tenho a tentação de fazer jus à sua confiança, retribuindo-lhe um título equivalente ao nome de mãe, que em algumas de suas cartas o Sr. me dá . . . Mas . . . (ainda uma confiança) a coragem me falta sempre, pois sinto-me pequenina e indigna de ser a sua mãezinha. Penso comigo mesma: melhor conhecida, serei melhor nomeada . . . No entanto, tive esta tarde um pouco de remorso, porque talvez a minha reserva o tenha desconcertado. Perdoe-me, mas fique certo de uma coisa: seja qual for o título que eu lhe der, ele encerra tudo quando há de melhor no meu coração: carinho, interesse, santa afeição em N. Senhor. Sou uma espécie de bicho do mato, que precisa ser domesticado, mas espero de N. Senhor o milagre de uma simplificação que há de adaptar-me ao gosto das almas. Não poderia ficar em paz, se não lhe dissesse tudo isto. Veja se o Sr. ainda se anima a querer mãe tão desajeitada  . . . Recebi hoje a sua carta do dia 22. Respondo a sua pergunta sobre as fechaduras: as duas portas da clausura devem ter duas chaves. Neste Carmelo, a fechadura da primeira porta foi feita à propósito, de modo que fecha com duas chaves distintas. Mas a segunda porta tem duas fechaduras, como o Sr. pensa colocar ai. Quando as portas que dão para o jardim, podem ter uma só fechadura bem forte, dessas que além da chave, tem ainda um trinco. Não sei que é assim que se diz . . . Isto é necessário para que as portas fiquem sempre fechadas pelo lado de dentro, mesmo quando a chave for retirada, como é nosso costume fazer durante o dia. Se as celas das veleiras ficarem à vista de pessoas que sobem ao locutório de cima, será melhor que tenham chave, pois é preciso que a gente conte com a curiosidade alheia . . . Digo isto, porque já aconteceu aqui uma pequena indiscrição. E aqui não temos veleiras. Quero pedir-lhe uma coisa, se for possível, faz parte do nosso programa, uma visita ao túmulo do nosso querido D.Duarte. Gostaria de lá deixar um retrato do nosso Carmelo. Se for possível, o Sr. quer fazer-me esse gosto, trazendo-me um retratinho do exterior do Mosteiro ? Esse “se for possível”tem sua razão de ser, porque pode acontecer que o estado das obras ainda não permita que seja tirado um retrato que deverá  ser visto e conservado. Em tal caso desisto do meu desejo. Acabo nesse momento de receber uma carta do nosso santo Pai. Que boa obediência ela me traz ! N. Senhor bem via que eu fazia de coração o sacrifício de não ir no seu auto . . .  assim tenho o direito de alegrar-me agora, ao ver que Ele aceitou minha boa vontade, sem querer privar-me da alegria de uma viagem em tão santa companhia, como a sua e a do Dr. Cristóvão. Um gosto feito por obediência, que coisa linda, não ? Preciso arranjar um meio de propor a Mons.Alberto essa decisão do nosso Pai. Ele ainda não chegou do Ceará, parece-me que só estará aqui no dia 31 deste. Estou pedindo muito a N. Senhor que abençoe a construção. As obras de Deus não costumam ir sem dificuldades, porque o sinal da cruz deve tudo santificar.  Não se preocupe muito, porque não adianta . . . Isto serve para mim também.
Tirei à sorte esses testamentos de N. Senhor, no dia da Ascensão. Por que será que o Sr.  sempre a mesma herança ? Parece-me que Sta.Madre deixou-lhe o mesmo.
Adeus. Em Jesus, a sua pobre mãezinha, (que custo . . .)
 
Ir. Gema
r.c.i.
 


+
J.M.J.T.
 
Carmelo, 8 - 6 - 1941
 
Meu irmão em N. Senhor.
 
Viva Jesus !
 
Quando recebi a notícia da transferência da inauguração do nosso Carmelo, fui logo adivinhando porque N. Senhor quis recomendar-lhe a virtude da conformidade . . . Vamos ver nessa circunstância o último selo divino posto sobre uma obra cujo alcance os nossos olhos não podem compreender bastante . . . talvez pelo ressoar que teve no meu próprio coração esse contratempozinho que desfez nossos planos. Só para o Sr., contarei que me extremamente doce encerrar o nosso Carmelo no Coração de Jesus. Não foi de sua adorável vontade, e não fiquei triste por isto. E olhe que paguei bem a minha parte, porque fiquei na incerteza. Depois do telefonema à Laly, nem uma carta daí. . . . Frei Paulo ficou com pena e telefonou para o Sr.. Só no dia 6 recebi carta de nosso Pai. Nossa viagem está nas mãos de nosso Pai, farei o que ele quiser , se bem que sinta imensamente não passar por Mogi e Aparecida. Em Mogi, tenho dívidas de amizade e também de gratidão, pois a Madre Raimunda e as irmãzinhas de lá tem sido de uma bondade extrema para com o Carmelo mineiro. É lá o meu refúgio em toda precisão. Em todo caso, se o nosso Pai quiser decidir-se pela viagem de avião, serei feliz de obedecer. Disseram-me que poderíamos tomar o avião em Taubaté, mas acho que ficaria muito complicada a viagem, não é ? Laly transmitiu-me algumas perguntas suas , que não compreendi bem. É melhor o Sr. escrever. Depois de minha última carta vi que o informei mal a respeito das fechaduras  das portas que dão para o jardim. As do interior da casa só tem uma fechadura forte e o trinco, mas a porta que dá passagem ao chacareiro tem duas. Não sei porque. Talvez seja para dar mais impressão de segurança, não ?  No dia de Pentecostes, tirei à sorte um dom do Espírito Santo para o Sr. Coube-lhe o dom de Ciência, realmente muito precioso para todos, mas principalmente para quem vive no mundo, em contato com as coisas. Essa luz divina ajudá-lo-á a descobrir em tudo um reflexo de Deus, de modo que as criaturas e os acontecimentos servir-lhe-ão de meios para melhor conhecer a N.Senhor. Estou muito contente de ser a portadora desse presente de Deus à sua alma, que me é tão querida. Desejo-lhe sobretudo, a ciência da cruz e do amor . . .  A alma que sabe compreender a significação real do sofrimento, encontrou o segredo da felicidade neste mundo, onde temos mais dias de pena do que de alegria. Fazer do sofrimento uma alegria, é transformar a terra em paraíso, não acha ?
Estou cismando uma coisa: a minha última carta tê-lo-á magoado ? Tenho expressões muito rudes, é preciso que o Sr.,se acostume comigo . . .
Mande dizer-me se o casamento de sua filhinha foi também transferido.
Recomende-me muito à D. Floranita e a todos os seus.
Adeus. No amor de N. Senhor, a sua
 
Ir.Gema
r.c.i.


     +
J.M.J.T.
 
Carmelo, 16 - 6 - 1941
 
Meu irmão.
 
Viva Jesus !
 
Recebi sua última carta que cruzou no caminho com outra que saiu daqui no dia 9. Não tenho nenhum medo da minha filha, mas penso que ela irá sofrer um pouco comigo . . . Enfim, pode ser que até 16 de julho N.Senhor me dê a graça de ficar boazinha, pois estou pedindo com insistência um coração de mãe. Quer unir-se a minha oração ? Creio que o interesse é de todos, não ?  . . .
Eu já havia previsto a sua dificuldade a respeito dos sinos. O menor leva uma mola de arame, em forma de espiral, para tornar possível o repique. Tenho grande desejo de que o João o nosso sacristão, vá até aí em companhia de Laly, porque ele entende bem de todas as nossas coisas e arranjará os sinos  como os daqui. Mande dizer-me a sua opinião a esse respeito. Já falei com Mons.Alberto, que prontamente deu a licença e até a passagem. Ficar-lhe-á somente o encargo de arranjar um lugar onde ele possa ficar. O João não é para nós um simples empregado,  é uma “preciosidade” que o Carmelo agradece a N.Senhor, pois hoje em dia é difícil encontrar-se um rapaz tão bom. Se ele for, quero que o Sr., o considere assim. Lembro-me de ter marcado o lugar da sineta que serve para chamar as Irmãs. Consulte aquela planta que o Sr. trouxe aqui em Setembro p.p. Não tenho mais aqui a nossa  planta, mas parece-me que combinamos colocá-la perto do gabinete do médico. Não me lembro bem.Para a roda, eis o que é preciso: uma campainha que toque de dentro para fora e outra de fora para dentro. A que toca de fora para dentro é pequena e deve ficar mesmo no quarto da roda. É a primeira que as veleiras tocam, quando querem chamar a porteira. Mas como acontece muitas vezes que a porteira esteja longe e não possa ouvir essa campainha, torna-se necessário ter outra, um pouquinho maior, colocada na porta do quarto da roda, mas do lado de fora, para que possa ser ouvida de longe, expliquei-me bem ? Como lhe disse, pedi apenas a mobília estritamente necessária, pois é preciso pensar  primeiro  em  arranjar o  que é  de N. Senhor.  Nem me lembrei da cozinha . . .  Vou dizer-lhe como é aqui: temos na cozinha para dependurar as panelas, uma armação de ferro, como se usa nas casas de família. A experiência mostrou que é mais prático, porque não é acessível às baratas. Além dessa armação temos um armário pobre, cujas portas, da metade para cima, são de tela de arame. É um guarda comida carmelitano . . . Na provisória (dispensa) temos prateleiras fortes, para por as latas onde são guardadas as provisões e também um armário para a louça e uma mesa, tudo bem pobre.  Esse armário deve ter as portas de tela de arame,  inteiramente, porque a nossa louça guarda muito umidade e por isto precisa ser bem arejada. Para a biblioteca, penso que podemos deixar para mais tarde, pois o Sr. me disse que ia fazer um armário embutido na parede, que por agora é suficiente para os livros que temos. Seria bom colocar na biblioteca uma mesa.  Tenho receio de exigir muito, sabendo da dificuldade criada pela falta de dinheiro. Precisamos ainda de tanta coisa ! Mas aos poucos tudo se arranjará, não é ?  No entanto esqueci-me de uma coisa necessária. Nossa roupa não é passada à ferro, mas temos um processo especial, muito econômico, que substitui muito bem o ferro: consiste em estirar as peças principais, com um pano molhado e depois secá-las ao sol. Para isto precisamos de uma mesa de madeira lisa, sem verniz e sem qualquer outra pintura, com as seguintes dimensões:  3 metros de comprimento, 0,70 de largura, e 0,40 de altura. É tão baixinha porque fazemos esse trabalho durante o recreio, mesmo sentadas no chão. Fiquei contente de saber que o Sr. vai mandar-me  o retrato que desejo. Será melhor mandar-me 2 , porque oferecerei um ao Exmo. Sr. D. José. Agora, a nova viagem . . . Se o Sr. soubesse como pensamos nisto ! Não quero mais dar a minha opinião, seguirei o que o nosso Pai resolver. Mas desejaria saber logo como iremos, porque é preciso resolver o seguinte: se formos de auto, temos de levar roupas para o caminho (2 malas)  e se formos de avião será preciso mudar essas malas na frente quando Laly for. Por isto, peço-lhe a caridade de avisar-me, logo que for firmada a resolução do nosso Pai. Se o Sr. julgar conveniente, passe-me um telegrama ou então telefone à  Laly ou para cá. Não me deixe na dúvida, sim ? Preciso avisar as irmãzinhas de Mogi, que esperam ansiosas, a solução do nosso caso. Interessante: Recebemos uma carta da Madre Benedita, do Carmelo de S. José, dizendo ter sabido que íamos passar pelo Convento de Santa Teresa, e que então nos convidava  a parar também no Carmelo de S. José . . . Respondi-lhe que isto foi surpresa para mim, pois nunca pensei na possibilidade de visitar outros Carmelos , além do de Mogi, que fica no caminho. Veja quanta notícia desencontrada nos chega. Estamos em completa incerteza. Pedi a um padre muito nosso amigo, as informações a respeito da personalidade jurídica do Carmelo. Quando foi requerida a deste Carmelo, assinamos todos um papel muito complicado, de cujos termos não gostei nada, pois davam ao Carmelo fins fantásticos. Reclamei, mas disseram-me que era preciso ser assim, porque do contrário não seria aceito o nosso requerimento. Será mesmo verdade ?  Confesso-lhe que tive repugnância de por o meu nome nesse papel. Ficarei bem contente se aí pudermos aparecer como somos. Talvez, para o Carmelo de S. Paulo, a dificuldade tenha sido proveniente dos bens possuídos. Aí, não teremos isto, graças a Deus . . . O padre ainda não me trouxe o que pedi. Se nada tiver recebido até à noite, mandarei depois, para não retardar esta. Soube que o nosso Pai voltou do Rio de avião. Diga-lhe que espero uma carta decisiva para o nosso caso. Laly irá no começo de julho. O tempo corre . . .

Adeus. Recomendo-me a todos os seus.
 
Em Jesus e Maria a sua
 
Ir. Gema
     r.c.i.
 

     +
J.M.J.T.   
 
Do nosso Carmelo, aos 18 - 9 - 1941
 
Sr. Gonçalves.
 
Viva Jesus !
 
Quero que esta cartinha o saúde à sua chegada a São Paulo, levando-lhe as nossas saudades. Em vão esperei até hoje alguma notícia . . . Bem disse o Sr. que os filhos são sempre”ingratos”. Hoje a Teresinha esteve aqui e contou-me que o Sr. está agora em Cambuquira de onde partirá no dia 20. Estou pedindo muito a N. Senhor que o descanso seja proveitoso à sua alma e ao seu corpo, e espero ser ouvida. Graças a N.Senhor, as irmãzinhas vão bem e a Madre está tendo muito juízo. Nosso querido Pai é que me passou hoje um susto enorme: sentiu-se mal logo que chegou para a Missa. Ficou vermelho demais, muito trêmulo e com a vista turva. Mandei chamar o Dr. Lucídio a toda pressa e passei boas horas de angústia, sem saber o que ele tinha. Dr. Lucídio veio logo, já trazendo os primeiros remédios, de modo que logo o reanimou. Não houve quem o convencesse de deixar de celebrar a Missa . . . Dr. Lucídio chamou-me em particular, para dizer que o caso tem alguma significação, porque nosso Pai tem um começo de artério esclerose. Creio que ele não sabe disto . . . Eis-nos pois ameaçadas de um grande golpe, se a tempo não conseguirmos desviá-lo. Na hora de minha aflição, esta manhã, não encontrei quem a partilhasse comigo, pois o nosso Dr. Cristóvão está viajando. Quantas vezes eu pensei: se o meu filho estivesse aqui, tomaria a direção de tudo . . . Felizmente, o Dr. Lucídio foi de uma bondade extrema, pois ficou aqui até quase 10 horas, para acompanhá-lo ao Seminário. Nosso Pai queria ficar aqui perto das filhas, mas ele não deixou. Entretanto, como um pouco de repouso se impõe no caso presente, prometeu-me dar todos os passos a fim de obter do Sr. Arcebispo, uma férias que serão passadas aqui no Carmelo. Mandei chamar o Sr. Quincas Andrade, para assegurar-me do bom estado do quarto. Ele prometeu-me que amanhã cedo virá  toda a mobília necessária, pois nosso Pai já mandou dizer que o Pe. Juvenal lhe dera licença de vir para cá. “Há males que vem para bem” diz o adágio popular. Assim o nosso querido Pai terá mais depressa um pouco de repouso. Sinto o meu filho não estar aqui, para ajudar-me a tratar dele bem direitinho. Supro a sua falta rezando por nós e para ele, porque terei de impor-lhe um regime rigoroso, visto o Dr. Lucídio ter exigido ter exigido a supressão de sal.
Dia 19 – hoje às 3 horas, nosso Pai virá. Vou mandar as duas veleiras à sacristia, quero saber como está o quarto. Se o Sr. estivesse aqui, estaria tranqüila . . .
Quero agora saber como está o Sr. e como vão passando todos. Espero uma carta . . . D. Floranita e as meninas estão gostando do passeio ? Envio-lhes muitas recomendações, bem como ao Sr. Carvalho. Minhas orações acompanham fielmente os queridos viajantes, pedindo a S. Senhor que lhes sirva de guia e depois os reconduza novamente ao porto, onde as saudades já são muitas.
Uma boa notícia: parece-me que aquele caso do serviço sanitário vai ser bem resolvido. A nossa Madre Maria José mandou dizer que não entra nenhum fiscal dentro do Mosteiro. Só visitam a chácara como em São Paulo. O Dr. Cristóvão está trabalhando para alcançar o mesmo em nosso favor.  Deo Gratias !
Ainda uma vez que N. Senhor esteja sempre a seu lado e não o deixe sofrer nenhum prejuízo espiritual. Quando estiver nos Carmelos de São Paulo e em casa de meus pais, lembre-se de que me representa.
Envio-lhe uma grande benção, toda cheia de carinho.
 
Sua pobre mãezinha.
 
Ir. Gema
r.c.i.
 
Nosso Pai já está aqui. Parece bem disposto, não sei se irá suportar a dieta terrível que lhe prescreveu o Dr. Lucídio. Estou tão contente de sabê-lo aqui pertinho de nós ! Adeus.
 

     +
J.M.J.T.
 
Betânia, 28 - 1 - 1941
 
Sr. Gonçalves.
 
Viva Jesus !
 
Sua querida carta foi uma festa para o meu coração. As mães perdoam facilmente . . .  basta uma palavrinha para desarmá-las. Foi o que me aconteceu. Não sei se ainda o alcançou em S. Paulo uma segunda carta expressa que escrevi à Laly, dizendo que o nosso querido Pai havia piorado. Ele mesmo manifestou o desejo de preveni-lo. Tinha o coração bem apertadinho ao escrever essa carta, pois a doença do nosso Pai acabou em toda minha fortaleza . . . O Sr. não pode fazer uma idéia do que foi a Missa do dia 24 deste, a última que ele celebrou na nossa capelinha, pois o Dr. Lucídio achou melhor levá-lo novamente para o Seminário, a fim de fazê-lo observar absoluto repouso. A despedida foi mesmo dolorosa, tanto para ele como para nós. Felizmente, depois do resultado do exame de sangue, o médico orientou-se mais seguramente, de modo que hoje o estado do querido doente é bem animador. Ontem mesmo ele telefonou para cá. Hoje, um Seminarista encarregou-se de telefonar, porque ele está levemente gripado. Todos os dias recebo um bilhetinho que me dá vida. É tão caridoso o nosso santo Pai !  Fiquei muito contente ao saber que o Carmelo de S.Paulo soube receber a sua visita. Se a M.Leopoldina fizesse menos, seria uma ingratidão. Aliás, ela já fora prevenida de que os queridos visitantes representavam a minha pessoa . . . Meus pais devem ter ficados consolados. Ainda não tive notícias deles, depois do feliz encontro. Espero que os dias passados aí no Rio sejam  dias cheios de consolações. Mesmo que lhe seja impossível recolher-se interiormente de um modo completo, não deixe de lançar de vez em quando, um olhar para N.Senhor, o Hóspede divino da sua alma. Ver as belezas  da criação e admirar a sabedoria de Deus nas maravilhas que Ele inspira à inteligência humana, tudo isto é uma oração. É a hora de utilizar o dom de ciência que lhe coube por sorte no dia de Pentecostes. Por meio dele o meu filho fará duas coisas criadas uma contínua lembrança do Criador, o que constitui uma verdadeira oração. Peço-lhe a caridade de agradecer por mim os bilhetinhos de Raquel e Lilita. Estou escrevendo muito apressadamente, para aproveitar a ocasião de mandar por esta carta no correio. Agradeço também a D.Floranita e ao Sr.Carvalho.
Quando estiver no Carmelo, lembre-se de pedir uma benção para mim à nossa querida Madre Maria José. Muitas recomendações à Madre Electa e à Ir.Maria da Conceição a quem desejo escrever. Não sei quando será . . . Estou devendo uma carta à M. Sub-Priora do Carmelo de S.José. Quer desculpar-me um pouquinho junto dela ? Que coisa feia estou fazendo ! Uma carmelita não se desculpa . . .
Aqui todas vamos bem, graças a N. Senhor.
Adeus. Os dias estão passando muito devagar, já tenho tanta saudade.
 
Em Jesus sua mãezinha.
 
Ir.Gema
    r.c.i.
 
 
 
 
      +
J.M.J.T.
 
Carmelo, 20 - 2 - 1941
 
Meu querido filho.
 
Viva Jesus !
 
Se o Sr. soubesse a que horas estou escrevendo, por certo ficaria zangado comigo . . . São 11 e 8 da noite. A casa inteira está em silêncio, só se ouve o barulho que vem da rua. Estou esperando que o relógio dê meia noite, para ir passar aos pés de N.Senhor uma boa hora de adoração. Isto desfaz a sua apreensão . . . É pois no silêncio da noite que venho dizer-lhe uma palavrinha cheia de saudades. O Aguiar mandou contar-me do seu telegrama, que muito me alegrou. N.Senhor não faz as coisas pela metade,  e por isto estou certa de que a estação há de ser proveitosa para todos. Será que aí o Sr. encontra também cada dia, a “Ponte”de “água viva”que refresca e robustece a alma ? Sem ela, a outra não vale coisa alguma, porque a alma forte carrega o corpo, ao passo que, quando só o corpo está forte, costuma pesar tanto para a alma, que a pobrezinha não agüenta com ela. Por isto, o Sr. não pode ficar zangado comigo agora que estou à espera de meu ingresso junto Daquele que é a minha força, no meio das dificuldades do momento. N.Senhor não retirou a cruz do ombros das Irmãs doentes. Bendito seja Ele ! N. Pai está bem diz ele. O escritório não ficou pronto, como ele queria. O Ir.Geraldo não pode vir cá, por causa do casamento da sobrinha, de modo que não houve quem pusesse fogo. Também o moço que ia arranjar a biblioteca não veio.
Tenho uma carta para o Sr. da M.Maria José. O Dr. Cristóvão foi quem a trouxe. Não vou mandá-la com esta, por recear que ela se perca. Hoje, 21, chegou um fardo da fazenda. Já vi que veio a lã do hábito das veleiras. Não vi o que veio mais, porque não abri. Minha vida foi apertada hoje. Estou escrevendo na mesma hora de ontem, são quase 11 e meia. Nesses dias de carnaval, ganhei uma hora de noite e escolhi das 12 a 1 por ser a hora dos maiores pecados. Que N.Senhor tenha pena de todos esses loucos.
Adeus, meu filho. D. Floranita tem passado bem ? A Lalita e o Carlos, como vão ?
Eu o guardo no Coração de N.Senhor.
Nele,  a sua
 
Ir.Gema
     r.c.i.


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